A tomada de decisão executiva passou por uma transformação estrutural no ambiente empresarial brasileiro.
Segundo a 28ª edição da CEO Survey Brasil, da PwC, divulgada em 2025, 45% dos CEOs no país acreditam que suas empresas não sobreviverão por mais de dez anos sem mudanças profundas em seus modelos de negócio.
O estudo ouviu executivos de diferentes setores e regiões e aponta que decisões estratégicas vêm sendo tomadas em um contexto marcado por incerteza econômica prolongada, avanço acelerado da tecnologia, maior pressão regulatória e escassez de talentos.
Esse conjunto de fatores ajuda a entender o que mudou no processo decisório, quem decide, quando essas decisões acontecem, onde seus impactos são sentidos, como os executivos estão ajustando seus critérios e por que decidir deixou de ser um exercício baseado apenas em experiência.
A mudança estrutural no ambiente de decisão empresarial
Durante muitos anos, decisões estratégicas foram sustentadas por ciclos previsíveis. Planejamentos anuais, projeções lineares e análises históricas orientavam investimentos, expansão e alocação de recursos.
Esse modelo perdeu eficácia.
Um relatório sobre produtividade e ambiente de negócios no país, publicado pelo Policy Center for the New South, mostra que a instabilidade macroeconômica, a complexidade regulatória e a recorrência de choques externos reduziram drasticamente a confiabilidade das previsões tradicionais.
Como resultado, executivos passaram a decidir considerando múltiplos cenários possíveis, muitas vezes sem clareza sobre qual deles irá se concretizar.
Nesse novo ambiente, o risco deixou de ser exceção e passou a fazer parte permanente da tomada de decisão.
Por que decidir ficou mais complexo para executivos
A complexidade atual não está relacionada apenas ao volume de informações disponíveis. Ela está ligada à natureza dessas informações.
Executivos lidam com dados abundantes, porém frequentemente fragmentados, contraditórios ou incompletos.
Decisões estratégicas vêm sendo tomadas sob incerteza profunda, quando não é possível atribuir probabilidades confiáveis aos cenários futuros. A pesquisa A tomada de decisão em ambientes voláteis demonstra que, nesses contextos, escolher a alternativa aparentemente mais eficiente pode aumentar o risco estratégico no médio e longo prazo.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão por decisões rápidas.
Os custos de erro também aumentaram, envolvendo impactos financeiros, reputacionais e regulatórios.
Tecnologia, dados e o limite do excesso de informação

A digitalização alterou profundamente a forma como as decisões são preparadas.
Ferramentas de analytics avançado e inteligência artificial ampliaram a capacidade de simular cenários e identificar padrões.
No entanto, mais dados não significam necessariamente melhores decisões.
Um estudo publicado na RSD Journal sobre a transformação do Big Data em conhecimento organizacional mostra que empresas sem processos claros de interpretação tendem a transformar dados em ruído decisório.
O desafio deixou de ser acessar informação.
Passou a ser transformar informação em julgamento estratégico confiável.
A dimensão humana da tomada de decisão executiva
Outro fator central no processo decisório é o componente humano.
Pesquisas em estratégia comportamental mostram que decisões de alto nível são influenciadas por vieses cognitivos, como excesso de confiança, aversão à perda e pressão por consenso.
No contexto brasileiro, um artigo publicado na Revista de Administração Mackenzie, disponível na SciELO demonstra que características dos CEOs e dos conselhos influenciam diretamente decisões relacionadas a investimentos, sustentabilidade e divulgação estratégica.
Isso reforça que a tomada de decisão executiva não é apenas técnica.
Ela é social, política e psicológica.
Decidir com método em um cenário de incerteza permanente
Diante desse ambiente, executivos passaram a buscar abordagens mais estruturadas.
Ganha relevância a gestão baseada em evidências, que combina dados internos, pesquisas externas e aprendizado organizacional.
A literatura sobre Evidence-Based Management aponta que decisões mais consistentes emergem quando líderes formulam boas perguntas, testam hipóteses e acompanham resultados.
Isso reduz a dependência exclusiva da intuição.
No Brasil, essa abordagem se traduz na necessidade de processos decisórios mais transparentes, com critérios claros e capacidade de ajuste contínuo.
O impacto específico nas médias empresas
Para empresas de médio porte, o desafio é ainda mais sensível.
Elas operam com menor margem para erro, recursos mais limitados e maior exposição a mudanças externas.
A CEO Survey Brasil 2025, da PwC mostra que, apesar da consciência sobre a necessidade de transformação, muitas organizações ainda mantêm modelos decisórios centralizados e reativos.
Isso amplia riscos e reduz a capacidade de adaptação estratégica.Nesse cenário, maturidade decisória passa a ser um diferencial competitivo relevante.
Quando decidir bem vale mais do que decidir rápido
A tomada de decisão executiva deixou de ser apenas uma atribuição individual. Ela passou a se configurar como uma competência organizacional crítica.
Decidir bem envolve leitura de contexto, gestão de riscos, integração entre tecnologia e julgamento humano e clareza sobre prioridades estratégicas.
Em ambientes marcados por incerteza e complexidade, empresas que estruturam melhor seus processos decisórios constroem maior resiliência. Mais do que prever o futuro com precisão, decidir bem passou a significar sustentar escolhas coerentes em diferentes cenários possíveis.