Em um momento em que empresas de todos os setores discutem produtividade, retenção de talentos, saúde mental e desenvolvimento de lideranças, uma série de comédia sobre futebol pode parecer uma fonte improvável de aprendizado. Mas foi exatamente isso que transformou Ted Lasso em um fenômeno cultural.
A série acompanha Ted, um treinador de futebol americano contratado para comandar um time da Premier League inglesa, apesar de não ter experiência com o esporte. A premissa parece absurda. Afinal, como alguém pode liderar uma equipe sem dominar tecnicamente a atividade?
Curiosamente, é justamente essa pergunta que torna a história tão interessante para gestores.
Enquanto muitas organizações ainda associam liderança a conhecimento técnico, controle e tomada de decisão, Ted Lasso apresenta uma visão diferente: a de que a confiança pode ser um dos ativos mais importantes para construir equipes de alta performance.
E os dados mostram que essa discussão está longe de ser apenas ficção.
Segundo o Edelman Trust Barometer 2025, a confiança em instituições e lideranças continua sendo um dos grandes desafios do ambiente corporativo atual. Ao mesmo tempo, pesquisas da DDI apontam que muitas organizações enfrentam dificuldades para desenvolver líderes preparados para lidar com equipes cada vez mais diversas, distribuídas e pressionadas por mudanças constantes.
Talvez por isso a trajetória de Ted tenha encontrado tanta ressonância dentro e fora das empresas.
A liderança não começa pelo conhecimento. Começa pelas pessoas.
Um dos episódios mais marcantes da primeira temporada é “Trent Crimm: The Independent”.
Nele, um jornalista acompanha Ted durante um dia inteiro esperando encontrar um treinador despreparado para o cargo. No final, sua opinião sobre a competência técnica de Ted não muda completamente. O que muda é sua percepção sobre quem ele é como líder.
Ao longo do episódio, Ted demonstra interesse genuíno pelas pessoas ao seu redor. Ele faz perguntas, escuta respostas, aprende nomes, observa comportamentos e procura entender o contexto de cada indivíduo.
Pode parecer algo simples, mas essa é uma habilidade cada vez mais rara dentro das organizações.
Muitos gestores dedicam boa parte do tempo a processos, indicadores e demandas operacionais. O desafio é que as equipes não seguem apenas estratégias. Elas seguem pessoas.
Isso não significa abandonar resultados ou reduzir o nível de cobrança. Significa compreender que confiança costuma ser construída antes da influência.
Talvez por isso tantos líderes encontrem dificuldade para engajar equipes. Antes de buscar adesão a metas, mudanças ou projetos, é necessário construir credibilidade.
Confiança não é simpatia. É consistência.
Existe uma interpretação equivocada de Ted Lasso que reduz o personagem a alguém excessivamente otimista ou simplesmente “bonzinho”.
Na prática, o que torna sua liderança eficaz não é a simpatia. É a consistência. Ted trata as pessoas com respeito mesmo quando elas não retribuem. Mantém seus valores sob pressão. Reconhece erros. Dá espaço para que outros assumam protagonismo.
Essa consistência gera previsibilidade e previsibilidade gera confiança.
Esse conceito aparece também em diversos estudos sobre liderança. A consultoria McKinsey destaca que a segurança psicológica dentro das equipes depende diretamente dos comportamentos adotados pelos líderes no dia a dia.
As pessoas observam constantemente como seus gestores reagem a erros, críticas, conflitos e más notícias. São essas situações que definem se um ambiente será marcado pelo medo ou pela confiança.
Em outras palavras, cultura não é o que está escrito na parede, mas sim o que acontece quando alguém erra.
O que o cartaz “Believe” realmente representa

Um dos símbolos mais conhecidos da série é o cartaz amarelo com a palavra “Believe” colado no vestiário. Em uma leitura superficial, ele pode parecer apenas uma mensagem motivacional.
Mas o sucesso desse símbolo não está na frase, está no contexto. O cartaz funciona porque existe coerência entre discurso e comportamento.
Ted não pede confiança enquanto pratica microgerenciamento. Não fala sobre trabalho em equipe enquanto centraliza decisões. Não incentiva aprendizado enquanto pune erros honestos.
O famoso “Believe” só tem significado porque é sustentado diariamente pelas atitudes da liderança.
Esse ponto conversa diretamente com os resultados do Projeto Aristotle, do Google. A pesquisa identificou que a característica mais presente em equipes de alta performance era a segurança psicológica. Mais do que talento individual ou conhecimento técnico, os melhores times eram aqueles em que as pessoas se sentiam seguras para participar, contribuir, discordar e aprender.
Quando existe medo, a colaboração diminui. Quando existe confiança, as pessoas participam.
Líderes não precisam ter todas as respostas
Outro aspecto interessante da série é que Ted frequentemente admite aquilo que não sabe.
Para alguns gestores, isso pode parecer um sinal de fraqueza. Na prática, ocorre justamente o contrário.
Ao reconhecer limitações, Ted abre espaço para que especialistas contribuam. Ele valoriza diferentes perspectivas, escuta sua equipe técnica e permite que outras pessoas assumam protagonismo.
Essa postura se torna cada vez mais relevante em um ambiente de negócios onde nenhuma liderança consegue dominar sozinha todas as áreas do conhecimento.
O papel do gestor deixou de ser o de quem possui todas as respostas. Cada vez mais, sua função é criar as condições para que as melhores respostas apareçam. Isso exige humildade, escuta ativa e capacidade de desenvolver talentos.
O gestor como multiplicador de desempenho
O relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, trouxe um dado preocupante: o engajamento dos gestores apresentou queda global.
A informação chama atenção porque líderes têm impacto direto sobre clima organizacional, produtividade, retenção e desenvolvimento das equipes.
Quando um gestor está sobrecarregado, sem preparo ou sem apoio, os efeitos se espalham rapidamente pela organização.
Por outro lado, quando existe uma liderança capaz de construir confiança, o impacto também se multiplica.
A série mostra isso de forma interessante. Ao longo das temporadas, a transformação do time não acontece porque surgem jogadores melhores. Ela acontece porque as pessoas começam a acreditar mais em si mesmas e umas nas outras.
Essa é uma reflexão valiosa para qualquer empresa. Nem sempre o principal desafio está na contratação de novos talentos.
Muitas vezes, o potencial já está dentro da organização. O que falta é um ambiente capaz de desenvolvê-lo.
O verdadeiro legado de Ted Lasso
Talvez a principal lição da série não seja sobre futebol, nem mesmo sobre motivação. É sobre a forma como a liderança influencia o comportamento das pessoas.
Em um mercado que exige adaptação constante, inovação e colaboração, confiança deixou de ser um tema secundário. Ela se tornou um fator estratégico para o desempenho das organizações.
Líderes que constroem ambientes seguros não eliminam desafios, conflitos ou pressão por resultados. Eles criam condições para que as pessoas enfrentem esses desafios juntas.
E essa talvez seja a grande diferença entre comandar uma equipe e liderá-la.
Afinal, pessoas podem obedecer por obrigação. Mas só se comprometem de verdade quando existe confiança.